O necessário mosaíco revolucionário de um empreendedor

No livro ”Cultura e Mosaico, uma introdução à teoria das estranhezas”, Ued Maluf* apresenta exemplos de como os estágios culturais de uma época permanecem fixos e impregnados por longo período em nossas mentes e corpos, impedindo a renovação de pensamentos, sentimentos e atitudes e, por outro lado, como um empreendedor revolucionário pode transformar o mosaico cultural com uma simples inovação.

Maluf relata que a sociedade grega de Aristóteles (século VI AC) tinha como diretriz cultural de seu mundo uma única verdade: os seus sentidos, percepções e ações eram baseados na verdade de que a Terra era o centro do universo e, consequentemente, o centro de gravidade de seus instintos era alimentado pelo que viam e sentiam, e todos outros astros e estrelas giravam como seus satélites.

Essas reflexões, pertencentes à sociedade de Aristóteles, não eram consideradas uma imposição estranha a ninguém, pois todos os humanos e divindades se afinavam pelo que consideravam certo e desejado naquele tempo.

Mas como alguns e poucos sapiens são curiosos, algo espetacular vem a ocorrer cerca de 2000 anos depois, em pleno século XVI.  Galileu Galilei, um espírito revolucionário formado de porquês, apresenta a seus governantes e bispos um produto inovador: um telescópio. Um produto iniciado por Copérnico, mas fruto de incansáveis questionamentos referentes à estrutura cósmica, que poderia responder a porquês como o dos navios que, ao se deslocarem das praias, se escondiam no mar, ou colocar dúvidas na aceitação e entendimentos de que simples esferas de cristal de Aristóteles sustentavam a Terra.

Penso que Galileu Galilei começou a sentir a diferença entre os sentimentos despertados em sua alma, pelas curiosidades, observações em seus estudos, e as ideias impostas pelo conhecimento tradicional. A imposição dos governantes em considerar a Terra como centro do universo se tornou inoportuna, e seu espírito começou a não se afinar e aceitar o que os outros consideravam certo.

Uma guerrilha revolucionária interna começou a tomar vulto em sua consciência. Suas novas teorias tiveram como consequência processos, julgamentos e condenações, que eram impostos a todos que desrespeitassem o tradicional conhecimento religioso.

Galileu, como um forte empreendedor (existem também os fracos), aceitou este fardo. Fez questão de reivindicá-lo e de querer demonstrar que a verdade tradicional deveria ser analisada sob sua nova ótica telescópica. Teve a sensação de que a ação dependia apenas dele. Acreditava que ser sincero era não falar demais, mas agir. Teve a convicção espiritual de que o seu possível fracasso nem sempre seria um fracasso verdadeiro, pois reconhecia que seu fruto poderia produzir algo mais elevado.

Esse pequeno exemplo de Maluf nos faz refletir sobre o papel de um forte empreendedor que consegue distinguir as diferenças entre um conhecimento imposto pelos outros e um saber que é despertado pelas curiosidades, observações e transpiração de ações.

Alfredo Laufer

Dezembro 2018

Referencia Bibliográfica:

Maluf, Ued. Cultura e Mosaico, uma introdução à teoria das estranhezas. Rio de Janeiro: Editora Sol Nascente,1997.

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