O conflito entre a “Destruição Criativa” e a Mosca Azul

O economista austríaco Joseph Schumpeter cunhou a expressão “destruição criativa” em seu livro Capitalismo, Socialismo e Democracia (1942) numa época de crises e guerra. Imaginou e acertou que seu conceito ganharia força no contexto da ascensão do neoliberalismo em alguns países desenvolvidos.

Ele apontou que a destruição criativa, daria origem à inovação em novos produtos, serviços e processos. Estas espirais de criatividade destruiriam não só empresários retrógrados que pensassem em seus umbigos, como nas empresas e entidades velhas com antigos modelos de negócios corporativistas. Para Schumpeter, o comportamento inovador dos empresários e seus empreendimentos pessoais e coletivos se tornariam forças motrizes do crescimento econômico que seriam sustentados a longo prazo.

“O processo de destruição criativa”, escreveu Schumpeter em letras maiúsculas, “é o fato essencial do capitalismo”, com o seu protagonista central do empresário inovador.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Destrui%C3%A7%C3%A3o_criadora

Em minha opinião, Schumpeter falhou em não considerar o ambiente propício ao desenvolvimento e proliferação da mosca azul em países abaixo da linha do Equador, o que colocaria sua destruição criativa, literalmente no reino dos fracassos sul-americanos, devido ao espírito corporativista que a mosca azul impregna aos organismos que sentem suas picadas. Tanto a vaidade, como o apego ao poder, a soberba e o orgulho são características encontradas no exame de sangue de suas vítimas.

Não custa lembrar que a história e os efeitos da mosca azul vieram de países orientais, na qual foi constatado que um servo foi picado pelo inseto e, a partir daí, começou a se olhar como o próprio sultão. Embevecido, ele se despersonalizou e se achou muito mais importante do que era, e enviado para um presídio de segurança máxima.

O que quer dizer a expressão “mosca azul”? Duas características aparecem associadas ao termo: o apego ao poder e a vaidade. É como que ser “mordido pela mosca azul” levasse a um estado de embriaguez, de alucinação, em que a “vítima” perde a noção da realidade.

http://www.robertomatoso.com.br/sis.noticia.asp?pasta=10&pagina=152&categoria=40&noticia=43&aplicacao=sim

Machado de Assis possui um poema com o título de “A Mosca Azul” que versa sobre uma mosca com “asas de ouro e granada”, “refulgindo ao clarão do sol”. O próprio inseto dizia: “Eu sou a vida, eu sou a flor, das graças, o padrão da eterna meninice, e mais a glória, e mais o amor”. Ainda no poema, um paria (homem da mais baixa classe do sistema de castas da Índia) observando a beleza da referida mosca, ficou “deslembrado de tudo, sem comparar, nem refletir”. Passou a ver na mosca o próprio rosto e a sonhar com poder e riqueza. Julgando estar diante de um tesouro, aprisionou a mosca, levou-a para casa e dissecou-a, ocasionando a sua morte. No final, o poema diz que o pária ensandeceu e “que não sabe como perdeu a mosca azul”.

O poema nos mostra que o homem viu na mosca o seu reflexo, projetando sua própria vaidade. O apego às posições, a utilização da estrutura do poder, e o autoritarismo das “castas”, não se restringem somente aos ambientes políticos. Está presente em inúmeras empresas e instituições. Há uma distorção quando o líder busca o cargo pelo cargo, ou se apega a ele como quem não consegue se ver sem ocupar uma posição similar ou superior. Julga-se senhor das vontades e das verdades. É preciso sabedoria para perceber que a liderança é resultado da confiança de um coletivo de pares (e não de párias). Precisamos ter noção que um líder é produto de um grupo de pessoas que possui uma visão comum, e que o cargo que ele ocupa é consentido por este mesmo grupo. Ou seja, o cargo não é do líder, é, paradoxalmente, dos liderados.

Confúcio (551-479 a.C.) nos alerta para a transitoriedade do poder e da riqueza quando nos diz: “se tiverdes acesso à fama, comporta-te como se estivesse a receber um hóspede.” O líder precisa estar atento para não passar a “achar feio o que não é espelho”, como canta Caetano Veloso. Para impedir tal “tentação”, é preciso deixar constantemente os canais abertos, como quem abre sua própria janela para evitar o “mofo” e a “proliferação de larvas”.

A mosca azul não morde ninguém. Podemos ver na mosca azul as nossas próprias vaidades e, perdendo a noção de realidade, passamos a acreditar que somos donos dos cargos. Mas como floresce em um líder a síndrome da “mosca azul”? Alguns pontos são comuns: 1. afastar-se do coletivo e da convivência com o contraditório; 2. cercar-se de um grupo restrito que diz o que o líder quer ouvir e não o que ele precisa ouvir; 3. perder a noção de que a hora da partida marca muito mais do que o triunfo da chegada; 4. esquecer que todo poder é efêmero, como disse Rubens Ricúpuro.

Nos tempos em que vivemos , precisamos desenvolver líderes que tenham mais consistência que aparência, mais fundamentos que argumentos e que, com humildade e desapego, não deixem florescer em si a mosca azul.

Fonte: http://www.robertomatoso.com.br/sis.noticia.asp?pasta=10&pagina=152&categoria=40&noticia=43&aplicacao=sim

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