O Carnaval de Máscaras

Sempre tive enorme fascínio por máscaras. Acho que elas revelam algo misterioso, inspirador, dúbio e libertador para as pessoas que não querem colocar seu rosto “na reta” e não têm coragem de expressar “suas verdades”, diferenciadas do senso comum, com sua face natural.

Quando usam uma máscara, muitas vezes suas forças são energizadas e as aparências são transformadas em virtudes reais: é como se elas se afastassem dos maus espíritos; percorressem o sentido verdadeiro da vida; esquecessem as agruras da realidade, e tudo fosse transformado pelo poder de uma vara mágica de alguma divindade do Olimpo.

Por outro lado, fui aprendendo que as máscaras têm funções nobres e outras não tão nobres assim. Dentre as nobres, algumas tribos indígenas colocavam uma máscara mortuária no rosto dos falecidos para sua passagem para a vida eterna, com a função de orientar ou evitar a fuga espiritual.  Na Grécia antiga, “o grego conhecia e sentia os pavores e os sustos da existência: simplesmente para poder viver, tinha de estender à frente deles máscaras resplandecentes de deuses do Olimpo”. Esta necessidade de suportar a dor da existência só era superada com o impulso de chamar a arte para a vida. As máscaras criavam um mundo intermediário e de representação do humano com os deuses do Olimpo. Desempenhavam um papel fundamental em busca de algum conforto, transformando a razão do ser humano ao permitir uma vitória completa da ilusão ingênua no processo da imaginação.

Dentre as não nobres, citamos o exemplo do Carnaval de Veneza, que teve sua origem no século XVII, quando a nobreza saía à rua mascarada e se misturava com a plebe para proteger a sua identidade em encontros “românticos regados com as louras da época”. Imortalizaram fantasias e figuras como o Arlequim (astuto e sedutor); a Colombina (uma “criada loura gostosa” exuberante, mulher de Pierrô, cujos olhares sedutores eram trocados sorrateiramente no emprego, e que com bela máscara se lança nos braços de Arlequim em pleno Carnaval), e Pierrô – o personagem “chifrudo”, mas de confiança, que tenta encontrar em outra Colombina seu amor.

Ao longo de várias décadas, convivendo com a arte de minha coleção de máscaras, necessitei ter muitos momentos de fuga do mundo do cotidiano, na ilusão de que alguma divindade estaria por trás dessas máscaras com sua vara mágica, transformando de forma criativa e substancial meus problemas em resultados espetaculares. Infelizmente, de volta desse estado letárgico em que estava submerso, deparava-me com os “pretensos deuses” travestidos com máscaras de humano, se assemelhando às pessoas que erram, se esforçam e também sofrem, solicitando-me que não botasse a “boca no trombone”, ou os denunciasse por suas corrupções de valores.

Empreender exige um esforço muito grande para gerar inovações. Como a escassez de tempo para reflexões torna-se cada vez mais frequente, habituamo-nos a usar antigas e velhas ferramentas, tornando-nos fiéis aos movimentos já conhecidos e acomodados às rotinas e atitudes habituais. Achamos que repetir algo já conhecido nos poupa tempo e energia. Assim, são poucos os indivíduos que conseguem ter iniciativas empreendedoras e, por meio delas, expandir horizontes para si e a sociedade.

A capacidade de um verdadeiro empreendedor depende do re-conhecimento dos valores em cada máscara de nossos Arlequins, Colombinas e Pierrôs da sociedade civil e governamental. Desejo a todos uma semana de Carnaval com muitas alegrias, mas um breve e rápido retorno ao mundo real, sem ilusão, para tentarmos desfazer os empilhamentos de lama e chuva, que pairam por aí, necessitando de muita realidade e transpiração de todos.

 

Alfredo Laufer

Fontes inspiradoras:

“Diário de um Empreendedor em busca do re-conhecimento inovador.” Laufer, A. 2018

Friedrich-Obras  In Nietzsche Completas – Lebrun, G e Filho, Rubens Rodrigues, 2014.

 

http://lounge.obviousmag.org/anna_anjos/2013/11/a-origem-da-mascara.html#ixzz5ft6k5vkD

 

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