Diferenças entre Narciso e o Empreendedor

A história do Narciso veio de diferentes versões da mitologia grega. Narciso era um formoso adolescente, filho de amores de um deus-rio, Céfiso, e uma ninfa. Quando nasceu, os pais interrogaram o vidente Tirésias sobre o destino de Narciso e a resposta foi enigmática: o menino conheceria a velhice se não visse a si mesmo. Chegando à juventude, sua rara beleza despertava paixões ardentes nos que o contemplavam, mas era com frio desdém que ele reagia ao amor de mortais e imortais.

Como tantas, a ninfa Eco se apaixonou por Narciso e precisou amargar a mesma decepção: encerrou-se em solitária caverna onde foi definhando até que de sua pessoa não restasse mais do que uma voz que gemia. Então, as jovens desprezadas pediram vingança aos céus: Nêmese, a justa, as ouviu. Em uma tarde de calor esbraseante, Narciso, fatigado de longas horas de caça, chegou num riacho para descansar. No espelho das águas viu sua figura e por ela se apaixonou perdidamente.

Junto a essas águas sombrias Narciso ficou curvado sobre si mesmo e fascinado com sua própria beleza a morte o levou para regiões banhadas pelo Estige. Narciso não conseguiu renunciar ao orgulho de seu mundo de ilusão, ignorando o contato e o diálogo com o outro. Resumiu-se a ficar encerrado como numa prisão dentro de si, sem se comunicar com os outros, dialogando com sua própria imagem sem substância, tremulando na água.

A história do empreendedor apresenta outra consciência e participa de uma dinâmica de relacionamento diferenciadora. O empreendedor só vai conhecer a velhice de seu empreendimento, se ele e suas equipes conseguirem olhar a si mesmo, para de um modo simples, adaptarem rápido e constantemente as análises e alterações que as águas trêmulas do mercado consumidor processam nas obsolescências de seus produtos, processos ou serviços.

O empreendedor necessita exercitar-se numa prática de diálogo e humildade de forma a não se transformar num escravo apaixonado de sua obra, absorvendo os próprios defeitos com os outros, como um ato eternamente presente e atuante de ver como as qualidades do outros podem remediar e preencher suas lacunas para não serem engolidos pelas águas sombrias do mercado.

Este blog foi baseado e adaptado em passagens do livro “O erro de Narciso”, de Louis Lavelle, editado pela Coleção Filosofia Atual, editado em 2016.

Alfredo Laufer

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