O Empreendedor e o sentimento oceânico

22/05/2018

O EMPREENDEDOR E O SENTIMENTO OCEÂNICO

Pierre Hadot conta que, ainda criança teve uma experiência inesquecível ao deslumbrar o céu estrelado: "fui tomado por uma angústia ao mesmo tempo aterradora e deliciosa, provocada pelo sentimento de presença do mundo, do Todo, e de mim nesse mundo." Mais tarde ao ler Romain Rolland, ele reconheceu o que esse autor denominou isto, de "sentimento oceânico".

Estas mensagens que o coração envia, nem sempre são escutadas, percebidas ou sentidas, sejam por falta de tempo, ou por rotinas e habitualidades de um dia a dia turbulento, com múltiplas tarefas impostas por outros. Os caminhos entre, ouvir nossas próprias intuições, sensibilidades e desejos, e a execução dos deveres do trabalho, ficam cada vez mais distante e complicada.

Penso que os “autênticos” empreendedores são aqueles que apesar de todas as dificuldades, criam condições e ambientes para praticar o sentimento do céu estrelado, deslumbrar o Todo, se sentirem inseridos no mundo e partirem na busca de suas realizações. Esse sujeito tem a necessidade de se descolar do seu eu individual para alçar o pertencimento das necessidades de sua equipe, de seu empreendimento como um todo. Como cita Hadot, “o eu tendencioso e fragmentário deve ultrapassar e elevar-se a uma “visão do alto”, a uma “perspectiva universal”.

O significado que dou ao espírito empreendedor é aquele no qual ele experimenta a importância do momento presente, vive cada hora como se fosse última, mas também olha o mundo como se fosse pela primeira vez. Cada momento é um momento diferente. Só um espírito empreendedor se sente pertencente e responsável por deveres com sua equipe, com sua comunidade, mesmo que a felicidade não seja prometida. São simplesmente princípios que conduzem a vida do dia a dia mais consciente, mais aberta para imensidão das necessidades dos outros.

Esse sujeito empreendedor não se cansa de aprender, pois para ele os conhecimentos fazem parte e forma de construção de uma maneira de viver. Esse sujeito parece que foi programado desde sua infância, pois sua atitude de vida o acompanha. Não quer dizer que ele tenha nascido com estes valores, mas desde cedo consegue sublinhá-las no seu dia a dia como uma virtude a ser perseguida em cada círculo de suas discussões. Desde cedo esse sujeito, não só apreende o sentido das coisas, mas sente profundamente as coisas vividas, registrando-as em seu diário de bordo, e assumindo uma atitude crítica e responsável diante dos ambientes artificiais que repercutem em si ou em seu entorno. Esse sujeito ouve muito, discute propostas viáveis e age sempre, independemente se está em período de vacas gordas ou magras.

O Empreendedor e o sentimento oceânico