Espetáculo: Em busca dos culpados

23/04/2016

Meu ex-sogro Michael, prisioneiro do campo de concentração durante a segunda guerra, me relatou que um dos exercícios nazistas mais cruéis que ele sofreu, era acordar pela manhã e ser conduzido a um enorme pátio no qual em uma das extremidades havia dezenas de milhares de paralelepípedos. Durante o dia os prisioneiros deveriam levar os paralelepípedos de uma extremidade à outra. Quando todas as peças estavam alinhadas na outra extremidade, deveriam recomeçar os movimentos. Ao chegar cansado em sua cela, chorava de angústia porque nada de útil fora construído ao longo do seu dia. Odiava o carcereiro, mas ele pouco podia fazer para modificar o sistema.

Enquanto muitos dormem durante a noite, um processo complexo, lento e espetaculoso se desenvolve a cada instante, na transformação da noite em dia. Um movimento de atividades sincronizadas que para muitos que sonham parece imperceptível, exercem uma dinâmica constante e diferenciada, que caminha ininterruptamente, em pequenos passos, para o surgimento do astro maior, que mais uma vez alegrará ou entristecerá nosso próximo dia.

Enquanto muitos vão exaustos para suas residências no incessante congestionamento do tráfego, na explosão das novas informações recebidas, pelas inúmeras atividades desenvolvidas, cansados por suas decepções, das poucas alegrias vivenciadas, na verdade, quase todos estão ao chegar, em busca de um relaxamento, de isenções de culpa, de uma “loura” gelada para falar de “abobrinhas”, ou contos de fadas novelescas para isentar as responsabilidades e esquecer que os mesmos exercícios motores e robóticos serão realizados no dia seguinte.

Se a competitividade global pode ser positiva por um lado, por propiciar o acirramento entre as empresas e indivíduos, cada vez maior e acelerado no processo de inovação de bens e serviços para servir às pessoas, por outro lado, traz uma anestesia paralisante no processo reflexivo e análises dos processos, enfatizando somente os resultados finais pelos quais os fins justificam os meios, ao contrário dos processos, nos quais os meios é que vão justificar os fins.

A simples busca por produtos finais nos coloca na presença de desastres do imediatismo: mortes provocadas por queda de uma ponte, ou de um viaduto, ou de uma represa, ou de um prédio, ou por explosões de botijões de gás, ou por fogos de artifícios armazenados em casa, ou por mosquitos, ou por uma infindável lista de calamidades públicas e privadas.

Estamos vivendo momentos dramáticos, mas como em todas as dualidades, muito rico para reflexões e análises. Um sistema de cultura tradicionalista e personalista busca resultados imediatistas, valorizando e personalizando indivíduos, como se seus erros ou conhecimentos individuais possam ser a fonte de justiça e resolução de todos nossos problemas e agruras de uma sociedade complexa. Esta sociedade busca por espetáculos de culpa individual, isentando todo um processo sistêmico de um acompanhamento coletivo.

Uma sociedade solidária e progressista ao contrário, percebe um erro como fonte inovadora de um processo, e busca seus aperfeiçoamentos através de movimentos coletivos, para que os erros cometidos na catástrofe que hoje eclodiu, não se repitam amanhã. O respeito pelas dores e mortes daqueles que sofreram, é traduzido em ações objetivas, para que possam ao menos, servir de alicerce e esperança futura para seus filhos e familiares.

Enquanto muitos dormem o sono dos justos, sem se incomodarem com o processo que se desenvolve nos subterfúgios e entrelinhas das corrupções, injustiças, desmandos de lá fora, penso que se não agirmos coletivamente e organizadamente na melhoria dos processos sociais, administrativos, políticos, empresariais continuaremos a acordar com as notícias trágicas e espetaculosas das manchetes televisivas, e nas ilusões de que se fará justiça, apenas ao apontar o(s) culpado(s), ou motivos de quem errou, como se fossem de sua e exclusiva responsabilidade, sem perceber as interações complexas de como os sistemas se desenvolvem durante a noite.

Espetáculo: Em busca dos culpados