CÓPIA INOVADORA

03/02/2016

CÓPIA INOVADORA

Um proverbio português diz: “Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”. Qual a diferença entre uma cópia (uma coisa), e uma cópia (outra coisa) inovadora?

O micro empresário Richard Towsend (semifictício), na década de 70, tinha uma pequena empresa de fabricação de tubos flexíveis, e começou a frequentar as feiras de Hannover, Alemanha, para prospectar e aprender novos processos de extrusão de plástico, conhecer novos produtos, e serviços que poderiam ser adaptados ao mercado brasileiro. Numa dessas feiras, vasculhando os estandes expositores, se deparou com uma pequena bomba hidráulica alemã que podia ser acionada por uma furadeira elétrica (dessas comuns, de furar a madeira, ou a parede), que servia para tirar água de aquário, de líquidos de depósitos pequenos, etc., com preço atrativo em torno de R$ 50,00 e de mil utilidades, disponíveis em diversas lojas. Comprou uma, com objetivo de ser copiada e lançada no Brasil, pois este produto poderia servir de estímulo ao consumo de tubos flexíveis que sua empresa fabricava.

Dois anos depois, Richard Towsend voltou à Hannover, agora como expositor num estande coletivo, graças aos incentivos do CEAG, hoje Sebrae, apresentando seus tubos e também o funcionamento de “sua” bombinha, puxando água de um balde, mas esqueceu-se que aquela bombinha era uma cópia fiel de um fabricante alemão.

Num dos dias da feira, ele foi passear por outros estandes, e no retorno viu uma aglomeração de pessoas junto ao estande. Pensou com seus botões: “nossa bombinha está fazendo o maior sucesso”. Ledo engano: o fabricante original alemão estava indignado, discutindo em altos brados com os gerentes do CEAG, a “sem vergonhice” da cópia que a empresa brasileira tinha realizado.

Depois de muitas tensões e discussões com o proprietário alemão, e posteriores risos entre os brasileiros, Richard Towsend, recebeu a alcunha de XEROX, por seu ato depreciativo de copiar, o que poderia denegrir sua imagem de empreendedor.

Hoje passados quase 45 anos deste fato, pode-se refletir e repensar que muitas cópias ajudaram países como o Japão, a China e outros, a ganharem status e desenvolverem novas tecnologias e processos, colaborando para o bem-estar coletivo.

Mas o que diferencia uma cópia (uma coisa) de uma cópia (outra coisa)? Valho-me da diferença de copistas na pintura que se dedicam muitas vezes a copiar um único quadro de pintores famosos. Na cópia (uma coisa), os copistas, copiam mecanicamente, sem nenhuma emoção, e sem repercussão do que a cópia pode representar ao seu ambiente de trabalho, enquanto que na cópia (outra coisa), o copista está dotado de sensibilidade, da faculdade de apreciação, do dom de admirar a excelência num grau acima do comum. Esses copistas (da outra coisa) conseguem sentir a profundeza do “indefinível nada”, encanto que impregna o original, como definiu Nathaniel Hathorne, e ver a luz central do que o mestre concebeu para que possa ser expandido coletivamente em seu ambiente.

Outra grande diferença inovadora que percebo numa cópia é a humildade do copista em admitir e reconhecer seus parcos recursos, conhecimentos, dons e capacidade de criar uma obra de tal magnitude, contentando-se em reproduzir e difundir as belezas consagradas dos grandes mestres, produtos ou serviços, desde é claro, que não tragam prejuízos à identidade original de seu criador, e respeite sua propriedade intelectual.

Minha conclusão: Richard Towsend, como uma Xerox, pode não ser considerado um inovador radical, mas com certeza trouxe para sua empresa inovações incrementais, que proporcionaram muitos conhecimentos para sua equipe. Hoje não me envergonho de copiar o que penso possa trazer bem-estar coletivo, respeitando é claro, sua propriedade intelectual.

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