O CAVALO AZUL DA GUINÉ EQUATORIAL NA BEIJA FLOR

22/02/2015

Ao me deparar com o debate crítico que está sendo travado na mídia brasileira e mundial, sobre as questões éticas e morais que envolvem o patrocínio para e escola de samba Beija Flor, no valor de 10 milhões de reais, por um país sob um regime ditatorial há 35 anos, lembrei-me do episódio do quadro Cavalo Azul, pintado por Franz Marc (1880- 1916), precursor do expressionismo, quando foi questionado pelo regime nazi que proibia a criação e difusão da tendência pictórica do pintor alemão.

Ele disse: “Sou um artista e pinto... um cavalo azul e... um crocodilo vermelho e... uma vaca amarela e...”

O gosto pelo azul de Franz Marc definia, segundo seus conceitos, o azul como “o princípio masculino, áspero e intelectual. O amarelo como o princípio feminino, suave, alegre e sensual. O vermelho como a matéria, brutal e pesado e sempre a cor que tem de ser combatida e superada pelas outras duas!”

As cores em todas as suas cambiantes, tonalidades e texturas, segundo concepção de Franz Marc são partes de sua influente revelação, contribuindo não só para reforçar a imaginação, como também para transmitir a importância da liberdade criativa. O que seria do branco, se todos gostassem do azul?

Nesta obra, ao mesmo tempo em que a figura do artista vai se aproximando do público, vão-se também introduzindo noções de Arte e História, que interessam aos cidadãos de todas as idades. “O artista que pintou um cavalo azul” tem um tom autobiográfico.

Se for o vermelho a cor da brutalidade ditatorial, da miséria, da corrupção, como conceitua Franz Marc, deve ser combatido e superado pelo esforço conjunto da sociedade, com todas as outras cores disponíveis em todos os momentos do processo democrático, e não apenas num carnaval.

Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa, como diz o proverbio em português.

Uma coisa é o “Cavalo Azul da Guiné Equatorial” diante de nós, concebido por artistas criativos, com rara beleza e harmonia cromática, em alegorias com dimensões fantásticas, com samba no pé e muitas gingas, cheio das energias de todas as idades, e trazendo muitas cabeças que precisam ser analisadas e refletidas com o maior respeito por suas concepções.

Outra coisa é o julgamento, a meu ver, repleto de hipocrisias, ético e moral, instalada em alguns setores de nossa sociedade, que ainda acredita que soluços espasmódicos, deflagrados em momentos carnavalescos possam reverter os entendimentos de um processo histórico e cultural secular, que se passa no dia a dia de nosso congresso, de nossas prisões, de nossos hospitais, de nossa base educacional, estes sim, monocromáticos.

Os processos históricos e educacionais exigem transpiração e dedicação ao longo de muitos anos, para que um mínimo de seriedade e dignidade possa ser transmitido à nossa sociedade.

Pensar e refletir são realmente momentos fascinantes e divertidos, mas precisam ser exercidos continuamente em todas as situações.

A.Laufer

O CAVALO AZUL DA GUINÉ EQUATORIAL NA BEIJA FLOR