Passagens: Da Manifestação Individual ao Empreendedorismo Coletivo

23/06/2013

Nas últimas semanas, temos visto nas ruas o início de um movimento coletivo que, a princípio, definiu-se e fez conquistas no âmbito do preço das passagens do transporte público. Podemos não ter a compreensão exata de tudo o mais que, nos bastidores, divide com este assunto o fôlego que tem alimentado uma manifestação pública como há muito não se via. Podemos não saber exatamente aonde tudo isso irá nos levar. Podemos lamentar e temer as ações de vândalos que ameaçam comprometer os direitos da democracia que tanto nos custou. O que não podemos é deixar de refletir sobre o que este momento significa.

O que, afinal, podemos aprender com tudo isso? Que outras Passagens (com P maiúsculo) compõem o momento que estamos vivendo? As Passagens representam um símbolo de pessoas que se movem no tempo; que almejam sair de um estágio conhecido e desejam chegar a um outro. Muitas destas Passagens podem se encontrar e se expressar nos sonhos, com o despertar de um desejo pessoal deitado e adormecido em berço esplêndido. Mas as realizações físicas e objetivas desses sonhos pessoais exigem conhecimentos e dedicação muito grande por parte daqueles que as desejam empreender.

O ponto inicial para que uma Passagem possa ser emitida é o transbordamento e a exteriorização de uma vontade interna pessoal. Isto representa uma manifestação individual. Agora, no momento em que eu decido utilizar a minha Passagem, e vejo um mundo de gente querendo ter também sua Passagem, constato que o coletivo está expressando as mesmas condições de vida e vontades que as minhas. No fundo, a individualidade e a coletividade podem se encontrar.

Infelizmente, o custo desta Passagem Coletiva pelo qual tanto estamos lutando não se reduzirá a apenas alguns centavos, nem a alguns quilômetros de passeatas dos bem-intencionados. Como já temos visto nas ruas, precisamos lutar por muito mais do que isso. Pagamos hoje um custo muito alto pela desigualdade, pela falta de investimentos em insumos básicos, como a saúde e a educação, e pela ausência de condições para que cada um dos brasileiros possa exercer, em plenitude, os seus direitos e a sua cidadania.

Teremos que lutar por Passagens Empreendedoras que tirem milhões de pessoas da ignorância rumo ao conhecimento, com soluções estruturantes para nossas escolas de ensinos básico, médio e superior. Teremos que modificar e sinalizar persistentemente muitos roteiros viciados de alguns vândalos camuflados que ainda não saíram às ruas. Teremos que criar novas Passagens na administração de hospitais e estradas esburacadas e lamacentas de corrupção.

Teremos que transpirar muito em articulações com todos os grupos e pessoas que desejam mudar e têm anseio de moldar o mundo à sua forma individualizada. Teremos que construir Passagens de uma forma de administração e gestão arcaica para a modernidade. Teremos que estar atentos às ações das pessoas que se apropriam de coisas, bens e propriedades que são totalmente públicos, como se fossem defensores de conteúdos da vontade da sociedade.

Se, por um lado, hoje nos emocionamos com a juventude nas ruas, precisamos lembrar que as lições já aprendidas devem nos servir de orientação. A potencialidade dos primeiros passos de uma multidão de adolescentes na Passagem para uma vida adulta faz os mais velhos reviverem novas esperanças, e é fato que este momento nos proporciona orgulho. Por outro lado, é importante que se construam Passagens e Pontes para que as boas experiências passadas possam ser transmitidas aos novos sonhos que estão se formando.

O Empreendedorismo Coletivo exige dedicação. Ele se inicia num estado de êxtase e paixão em que brotam desejos e ambições de Passagens que parecem surgir somente em nossas individualidades. Basta, no entanto, que tenhamos a coragem, a persistência e a disciplina de percorrer os primeiros passos para percebermos que o sonho não é apenas nosso. Temos muitos cidadãos sonhando com o bem comum. E basta darmos os primeiros passos para percebermos que somos muito mais fortes do que imaginávamos - um preceito que parecia, até ontem, arcaico, mas que hoje representa as Passagens de um mundo alienado e egoísta para o Empreendedorismo Coletivo.

Passagens: Da Manifestação Individual ao Empreendedorismo Coletivo