O tigre, a ovelha e a Orquestra Sinfônica do Rio

07/05/2013

Penso que a arte de um governo é definir políticas e diretrizes que priorizem aos seus cidadãos obterem por seus próprios meios, utilidades básicas à vida: alimentação, vestuário, moradia, educação, saúde.

Os antigos gregos cultuavam a necessidade de interação e sinergia de duas artes para formação de seus guardiões da cidadania: a ginástica e, a música. Diziam que “os que praticam exclusivamente a ginástica acabam ficando mais grosseiros do que convém, e os que se dedicam apenas à música, tornam-se mais moles do que lhes ficaria bem.” A interseção das duas poderia provocar a disciplina para o corpo e a criatividade para a alma.

Outro valor imprescindível a um verdadeiro cidadão estava baseado nas suas argumentações. Ele tinha que buscar argumentos próprios em seu país: “É uma vergonha, e um grande sinal de falta de educação ser forçado a recorrer uma justiça importada de outrem, como se eles fossem amos e juízes, por falta de uma justiça própria”.

Estes elementos de educação cidadã me levaram a refletir sobre o recente caso da Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro, em que a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro cortou a verba anual de R$ 8 milhões de reais, alegando que quase a metade dos músicos pertencia às duas orquestras da Cidade do Rio de Janeiro, cuja manutenção é R$ 40 milhões por ano.

Sou favorável ao corte. Defendi e aplaudi a firmeza dos argumentos de nosso alcaide para o corte da verba da Orquestra, considerando que muitos dos atributos à formação de um cidadão residente nesta cidade estão muito longe de serem alcançados, como são os casos da educação e saúde. Idealizei que o corte de custos da orquestra poderia priorizar melhorias de infraestrutura em educação ou saúde municipal e atenderia a milhares de cidadãos cariocas.

Alguns dias depois surgiram críticas em algumas colunas de jornalistas, sob argumentos de comparações entre nossa cidade e outras do mundo ( N.York, Berlim, Paris, etc.) que possuem não apenas 2, mas dezenas de orquestras. Sou totalmente contrário a este tipo de raciocínio.

Senti vergonha, de ser forçado a engolir uma argumentação importada de outrem, como se eles fossem nossos amos e amos, por falta de argumentos próprios.

Lembrei-me da fábula que sintetizo abaixo.

Uma tigresa em elevado nível de gravidez estava em busca de sua caça, quando se deparou com um grupo de ovelhas pastando. Mirou a sua vítima e correu em sua busca. Não viu uma pedra pontiaguda em seu caminho e caiu desfalecida, mas não antes de dar à luz a um tigrinho.

Após algum tempo, as ovelhas retornaram à sua pastagem e verificaram o tigrinho urrando timidamente e com fome. Em reunião do conselho estratégico das ovelhas, a direção resolveu que o tigrinho deveria fazer parte de seu grupo. Um grupo de nutricionistas cuidou de dar leite de ovelha, fonoaudiólogas especializadas resolveram intensificar sessões para que o tigrinho pudesse emitir sons parecidos com os de seu grupo, cabeleireiras do salão de beleza cuidavam de tirar as listras, e especialistas plásticas estudavam até um implante de cabelos brancos no corpo do tigrinho.

Tudo ia muito bem, o tigrinho crescendo, pastando aquela relva verdinha que tanto agradava às ovelhas, até que um dia surgiu um tigrão no pedaço. O tigrinho não estava entendendo o porquê de todas suas amigas estarem fugindo, correndo. Ele permaneceu imóvel, continuando a pastar. O tigrão chegou perto do tigrinho e perguntou:

- Ô cara, o que é que estás fazendo aí comendo relva?

O tigrinho não estava entendo nada!!! O tigrão levantando o tigrinho pegou um espelho e mostrou que eram parecidos. Nada do tigrinho entender...

O tigrão perdeu a paciência, levou o tigrinho para uma caverna onde tinha acabado de abater um alce. O tigrinho ao olhar o sangue, quase desmaiou e por pouco não vomitou. O tigrão foi à loucura. Pegou um pedaço de carne do alce e empurrou goela abaixo do tigrinho. O tigrinho após saborear a carne, soltou o seu primeiro urro de alegria e prazer.

Minha conclusão da história: Será que para sermos aprovados pelos outros necessitamos camuflar nossa pele? Ter aulas de fonoaudiologia para falarmos como outros desejam que falemos ? Pastar como uma ovelha sendo tigre? Ou comer carne sendo ovelha?

Pobre tigre que um dia se julga ovelha!!!

Pobre ovelha que um dia se julga tigre!!!

Quando vamos soltar nosso grito próprio?

O tigre, a ovelha e a Orquestra Sinfônica do Rio