“Para (saber) Escutar”

14/04/2013

Inspirado no jornal “Para (Saber) Escutar”

Casa Daros

Quando me formei em engenharia mecânica (1965) minha turma era de 14 alunos e o Brasil estava recebendo inúmeras grandes fábricas do setor automobilístico e outras. Na época “o instantâneo, o efêmero e o aleatório não eram as marcas da celeridade que o mundo experimenta hoje”. Nossa sociedade estava entrando na fase do autoritarismo e era totalmente supérfluo o desafio de saber escutar e de saber se fazer escutar.

Lembro-me que homenageamos na formatura um diretor de importante indústria mecânica, fabricante de máquinas de usinagem, com a intenção de que ele nos oferecesse emprego em sua fábrica. Todos nós estávamos sedentos de botar as “mãos na graxa” e colocar em prática aquilo que estudamos durante 5 anos, sentados nos bancos universitários. Nossa decepção geral foi quando ele ofereceu 15 vagas para engenheiros mecânicos, mas para trabalhar no departamento de vendas da empresa. Ficamos completamente órfãos. Pensávamos: “Como esse cara ousa nos oferecer esta posição? estudei tanto tempo para ser um vendedor, colocar catálogos debaixo do braço e vender máquinas?” Na época um desaforo que nunca esquecemos. Todos recusaram as vagas.

Julgávamo-nos (ou julgamo-nos?) “engenheiros donos da verdade e do conhecimento”. Sabe o que significa o diploma de engenharia no Brasil (na época só cerca de 1% de nossa sociedade frequentavam universidades)? Foi para isso que estudei e tanto me sacrifiquei? Levar catálogos e vender máquinas para outros “verdadeiros” engenheiros em suas áreas operacionais?

Hoje, entendo um pouco melhor a oferta daquele diretor, que tanto me ofendeu na época, e que hoje homenageio. Naquela época a sociedade estava mergulhada naquele ambiente de ditadura. No entanto, ele sabia escutar os ventos que sopravam de outras direções, além do nosso ambiente interno. Ele estava aberto ao “exercício de respeito e da humildade de ESCUTAR o conhecimento de outras áreas, no qual a dúvida se torna terreno fértil diante de convenções e autoritarismos”.

Fui levado por minha filha Nata, quase à força, à Casa Daros (www.casadaros.net) no feriado da Páscoa. É um espaço dedicado à arte, à educação e à comunicação...mas como foi bom...como o espaço é rico em sua programação de arte, educação e comunicação!!!Como foi legal escutar as histórias do lugar, das pessoas que participam da mostra. Como foi emocionante escutar as paredes!!!

Recomendo fortemente aos amigos e inimigos. “Não podemos esperar que algo mude se continuarmos presos à mesmice: se não nos reinventarmos, não haverá extramuros”.

Obrigado Nata, por insistir comigo.

Obrigado Casa Daros pelo belo e excelente trabalho!!!

“Para (saber) Escutar”